Sr. Presidente da Academia Pernambucana de Letras, Waldenio Porto

Srs. Acadêmicos

Autoridades presentes

Queridos familiares

Sras. e Srs.

 

 

 

 

A TRADIÇÃO E A RENOVAÇÃO

 

Chego à Casa de Carneiro Vilela, reafirmando a minha confiança nas possibilidades do ser humano, qualquer que seja a diversidade das condições que enfrente, pois nutro a crença de que o homem é a medida de todas as coisas, como já o afirmaram os filósofos da Antiguidade Helênica.

 

Recordo que Solano Trindade no Poema do Homem expressa: “Desci à praia/ Para ver o homem do mar,/ E vi que o homem/É maior que o mar/Subi ao monte/Pra ver o homem da terra./E vi que o homem/É maior que a terra”. O grande espetáculo sempre foi e será o homem.

 

Confesso-me um realista esperançoso. Jamais perdi a esperança, embora haja tantas dificuldades no caminho. Talvez os desafios e as dificuldades façam o próprio sentido da caminhada, ao resistir e continuar.

 

Por se tratar de uma instituição centenária, acredito que todo escritor, ao tomar posse na Academia Pernambucana de Letras, adquire, de súbito, uma história de cem anos. Logo, o seu olhar não é dirigido para frente, “na direção do relâmpago” – como diria Shakespeare – mas para trás, para a tradição que remonta ao seu fundador: Carneiro Vilela.  

 

O Bruxo do Cosme Velho, o imortal Machado de Assis, cujo centenário estamos comemorando neste ano, ensinou, em seu discurso quando da fundação da Academia Brasileira de Letras, que a Academia precisa da constância de todos, que a tradição é o primeiro voto e que ele deve perdurar. Tradição no sentido daquilo que resiste ao tempo. Em carta a Joaquim Nabuco, legenda da terra pernambucana, chegou a afirmar que o passado é a melhor parte do presente.

 

O escritor Alceu Amoroso Lima, esse pernambucano notável, disse ao tomar posse, em 1935, também na Academia Brasileira de Letras, que são complementares e, de duas ordens, as funções literárias da Academia: a de tradição e a de manutenção do que ficou de bom; de criação e de renovação da cultura nacional. Esta é a lição atual e permanente, edificada sobre os juízos do mundo sempre tão singulares e, às vezes, tão paradoxais, como lembrava Machado de Assis.

 

PAULO MACIEL E A CADEIRA 25

 

É honroso e desafiador para mim ocupar a Cadeira 25 da Academia Pernambucana de Letras, sucedendo ao saudoso Paulo Maciel, que foi mestre erudito no plano formal e no plano intelectual e das idéias: foi professor, pró-reitor, reitor, diretor do antigo Instituto Joaquim Nabuco, presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool, secretário de Estado, deputado federal, membro da Academia Pernambucana de Letras, e, sobretudo, um humanista e uma das maiores inteligências que Pernambuco produziu.

 

Pensador refinado e homem de ação pronta, esse é o perfil sintético desse pernambucano ilustre e completo, cuja memória se incorpora ao legado da cultura brasileira.

 

E que dizer dos vários outros ocupantes desta cadeira de nº 25, como o patrono Martins Júnior e o fundador Layette Lemos?

 

O fundador Layette Lemos foi presidente da APL no período entre 30 de dezembro de 1930 e 29 de março de 1932.

 

O patrono Martins Júnior ocupou a Cadeira nº 13, e, quando da reforma de 1921, passou a ser o Patrono da Cadeira nº 25. Membro da Academia Brasileira de Letras, eleito a 13 de maio de 1902, também lá escolheu a Cadeira nº 13, cujo Patrono é Francisco Otaviano de Almeida Rosa, porém, não chegou a tomar posse. É Patrono da Cadeira nº 20 da Academia Amazonense de Letras.

 

       Valdemar de Oliveira foi o acadêmico que permaneceu por maior período na presidência da Academia Pernambucana. Ocupava a cadeira n° 25 e sua atuação marcou definitivamente a dramaturgia pernambucana e brasileira. Pai desse homem admirável que é o acadêmico Reinaldo de Oliveira. 

 

 

MAXIMIANO CAMPOS,  MEU PAI

 

Acredito que, ao ingressar na Academia Pernambucana, de certa forma, também é de Maximiano Campos, meu pai, esse pertencimento.

 

Maximiano era um grande leitor. Amigo dos livros. Era escritor.

 

Há duas maneiras, entre várias, de um pai marcar o destino de seus filhos: uma delas é a banalidade da repressão, a outra é pelo exemplo de dignidade e retidão. Há duas maneiras, entre outras, de um escritor inscrever-se na história: uma delas, pela adesão ao modismo e a concessão ao mercado; a outra, pela preservação do humanismo e o rigor no exercício da expressão literária. Em um tempo de vulgaridade artística que confunde talento com mercadoria, são poucos os que, como meu pai, Maximiano, preservaram na ficção e na poesia a sua visão humanista primordial e reta por meio da qual desenhou a sua vida.

 

Registro, neste momento, a grande e inexcedível importância para mim e Eduardo, meu irmão, da nossa mãe Ana, que sempre foi uma pilastra e um grande exemplo em nossas vidas, sabendo transformar em benefício todas as coisas que a existência lhe proporcionou, amando-nos com o mais verdadeiro amor materno, aquele que se exalta em desinteresse e se aurifica na devoção, nas crises, nos arroubos e elevações da alma não estreita, onde couberam todas as coisas essenciais.

 

Aqui estão também Luís Felipe e Marco Antônio Campos, filhos amados, a quem dedico esta noite, na certeza que a vida é um processo de continuidade.

 

 

 

PERNAMBUCO, QUIXOTE DA FEDERAÇÃO,

MOLDURA DA MINHA VIDA

 

          Pernambuco é a moldura de minha vida.  

 

Pernambuco, “a terra de mais luz da Terra”, na expressão de Pinzón, referida pelo poeta João Cabral de Melo Neto no seu poema “O Sol em Pernambuco”, vem assistindo a um verdadeiro renascimento cultural com fulcro na (re)valorização de seu diversificado patrimônio artístico-cultural e histórico.

 

       Pernambuco vem mostrando a força e a criatividade de seu artesanato, de sua culinária, de sua música, de suas festas populares, das suas artes plásticas e cênicas e de sua literatura. Constantemente, exposições são inauguradas, livros são lançados e relançados. Feiras e festas literárias são realizadas. É tempo de Pernambuco.

 

       O sociólogo Renato Carneiro Campos, meu tio, em ensaio intitulado “Joaquim Nabuco: um agitador de idéias”, afirma que, se tivéssemos que escolher um Estado na Federação para representar D. Quixote este Estado seria Pernambuco. “Não lhe faltam magreza, loucura e sonho para tanto”.

 

       Realmente, tio Renato tinha razão: Pernambuco com suas revoluções, com seus movimentos libertários abafados a ferro e a fogo, é uma espécie de D. Quixote da Federação.

      

       Em virtude dos seus ideais republicanos, manifestados em 1817(República de Pernambuco) e 1824(Confederação do Equador), o território da antiga Província de Pernambuco perdeu as Comarcas das Alagoas e do São Francisco. Contudo, Pernambuco resistiu e nunca deixou de sonhar e de lutar.

 

       Alceu Amoroso Lima disse, certa vez, que o Brasil, quando está em crise, se volta para cá, para a região cortada pelo Rio São Francisco, que é o “Rio da Integração Nacional”.

 

       Dedico um grande amor a Pernambuco, que carrego dentro de mim.     Mas foi na obra do poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, que encontrei os versos que traduzem esse meu sentimento:

       “(..)carregamos as coisas,

       moldura da nossa vida,  

       rígida cerca de arame,

       na mais anônima célula,

       e um chão, um riso, uma voz

       ressoam incessantemente

       em nossas fundas paredes”.

      

Aqui, em nossas terras, o poeta cristão-novo Bento Teixeira fez o primeiro poema do Brasil (Prosopopéia). Daqui saíram as primeiras imagens do Mundo Novo. Aqui, forjou-se o berço da nacionalidade. Pernambuco não se cansa de sonhar e de criar.

 

       Que o sol de Pernambuco e a força de sua cultura e de seus ideais libertários, forjados na luta de gerações, acendam uma luz no meio da escuridão e nos mostre o caminho do reencontro entre o Estado e a Nação. Entre uma periferia marginalizada e uma minoria elitizada que não compreende a maioria, que precisa ser integrada à sociedade, evitando-se que essa minoria viva cada dia mais assustada com a escalada da violência. Na realidade, justiça é o novo nome da paz.

 

 

 

A PAIXÃO PELO LIVRO

 

Peço licença agora para falar sobre a paixão pelos livros, que carrego comigo. 

 

       Costumo afirmar que o livro é o maior amigo do homem e pactuo com quem já definiu que o livro é apenas um instrumento para encontrarmos a verdade por nós mesmos.

 

Marcel Proust, nesse sentido, revela: “todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo. A obra é um instrumento que lhe permite discernir o que, sem ele, não teria visto em si”.

 

O livro atravessou eras de guerras e perseguições, sobreviveu e, mais ainda, saiu fortalecido. Nesta época de incertezas, de uma grave crise econômica global, a cultura e o livro continuam sendo as armas para se manter os valores básicos do homem acima dos conflitos econômicos e de credo.

 

O livro é uma forma de resistência e reexistência numa globalização que só trouxe uma maior integração do mundo e, paradoxalmente, uma maior desintegração do homem.

 

É, no saber de Mário Quintana, um agente de mudança e esclarece o poeta: “Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

 

 

      

A POESIA COMO COMPANHEIRA

 

          Tenho a poesia como companheira.

 

Gostaria de fazer uma reflexão sobre a palavra poética, sua força ancorada na miríade de portos de beleza que resgata o homem seqüestrado pela multidão de ilusões que o confundem e o diminuem. E diminuir o homem foi a exagerada medida do século XX.

 

       Precisamos criar um novo humanismo para o século XXI, resgatando a verdadeira identidade do homem em harmonia com a natureza.

 

No turbilhão da violência globalizada, das mudanças vertiginosas, de acontecimentos funestos, como o do 11 de setembro americano, da guerra do Iraque e entre árabes e judeus, dos atentados na Inglaterra e na Espanha, a palavra poética é porto seguro, morada sagrada do homem, desde Homero. Ela toma o partido da humanidade, insere-se de corpo, alma e palavra na ideologia do homem.

 

Quase todas as nações, observa Voltaire, têm tido poetas antes que tivessem alguma outra sorte de escritores. Homero floresceu antes que aparecesse um historiador. Os cânticos de Moisés são os mais antigos monumentos dos hebreus, comenta Antônio Joaquim de Mello, em “Biografia de Alguns Poetas e Homens Ilustres da Província de Pernambuco”, de 1856.

 

Acredito não ser redundante dizer que a grande arte, seja qual for a forma em que se expresse, a exemplo de um belo poema, sempre nos leva a Deus, tecendo o livro da vida como se fosse uma oração.

 

 

 

IMORTAL É A ARTE

 

       Tenho dito que a vida é um ato contínuo de despedida. Tudo o que fazemos, de certa forma, tem um ar de despedida porque, ao contrário dos outros animais, temos consciência da morte. Temos consciência da morte e dessa ilusória imortalidade que talvez nos confira o que deixamos de nós no que criamos, no que escrevemos, no que realizamos.

 

       A vida é curta, mas a arte é longa, já diziam os gregos. Não sei se a vida é longa ou é pequena. Sei que a vida é bela e precisa ser vivida plenamente.

 

Em “Palavras de Pórtico”, texto resgatado pela organizadora Maia Aliete Galhoz, na primeira edição (1960) de “Obra Poética”, da Aguilar Editora, o poeta Fernando Pessoa radicaliza essa proposição:

 

“Navegadores Antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso; viver não é preciso.’

 

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”

 

E prossegue o grande poeta português:

 

“Não conto gozar a vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.”

 

       O homem ao criar se assemelha a Deus, que é o grande criador. Aproxima-se da eternização através de sua arte.

 

       Hoje, eu aprendi a contar melhor o tempo, esse relógio trágico e mágico que marca a vida. O tempo não se conta pelas folhas que murcham e caem das árvores ao longo do caminho, mas pelos frutos colhidos ao longo da vida. O tempo não é mais que um momento, mas será eterno se for belo o gesto.

 

 

O COMPROMISSO DO ESCRITOR

 

Albert Camus por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel de Literatura de 1957 falou sobre o papel do escritor:

 

“(...) em todas as circunstâncias da sua vida, obscuro ou provisoriamente célebre, posto a ferros pela tirania, ou livre de se exprimir por algum tempo, o escritor pode tornar a encontrar o sentimento de uma comunidade viva que o há de justificar, com a única condição de aceitar, quanto puder os dois encargos que fazem a grandeza da sua profissão: o serviço da verdade e o serviço da liberdade. Já que sua vocação é de reunir o maior número de homens possível, ela não pode acomodar-se à mentira e à servidão que, onde reinam, fazem proliferar as solidões. Sejam quais forem as nossas pessoais enfermidades, a nobreza da nossa profissão radicar-se-á sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre o que se sabe e a resistência à opressão”.

 

       Reafirmo esse compromisso ao tomar posse na cadeira 25 da Academia Pernambucana de Letras: o da busca da verdade e o da defesa da liberdade. 

      

       Finalizo com versos do meu livro “Portal de Sonhos”:

 

       “Pode não ser paz a morte nem tranqüila a vida,

       há sonhos no homem que nem a eternidade limita”.

 

       Hoje, o sonho é realidade, entro na Casa de Carneiro Vilela.       

 

       Muito obrigado pela atenção e que Deus abençoe a todos nós.

 

Antônio Campos

Escritor e Advogado

10.12.2008

 

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CAMPOS, Antônio. Discurso de posse na Academia Pernambucana de Letras.  Recife, 10 de dezembro de 2008.

 

 

 

          

 

"[...] Antônio tece agora para nós a outra voz, a que foi chamada poesia por Octavio Paz, com a humildade e a altivez híbridas do poeta, fazendo a sua parte nesse jogo e nessa viagem com que todos nos defrontamos."

Lucila Nogueira

 

CAMPOS, Antônio. Portal de Sonhos. São Paulo: Escrituras, 2008. Projeto gráfico: Patrícia Lima. Fotos de Gustavo Maia.