Este blog registra o cotidiano das atividades do advogado, editor, escritor e poeta Antônio Campos, suas atuações no mundo das letras e na vida cultural e empresarial pernambucana. Contato: camposad@camposadvogados.com.br
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SAUDADE DO POETA DA COR
No último dia 1° de julho estivemos há exatos 50 anos da morte do escritor pernambucano Carlos Pena Filho. O poeta, que nasceu no Recife em 17 de maio de 1928, faleceu em um acidente de carro ao lado de seu amigo José Francisco de Moura Cavalcanti. Pouco antes, meu padrinho de crisma, o advogado Syleno Ribeiro, chegou a entrar no mesmo veículo, mas saiu antes do ocorrido. Estudou o primário e o ensino fundamental em Portugal, pois era filho de portugueses.
Assim como eu, formou-se Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e descobriu logo cedo sua paixão pela literatura. Com apenas 19 anos já demonstrava a habilidade com letras de música e poemas. Em 1947 publicou, no Diário de Pernambuco, o soneto Marinha. Era o primeiro de vários que viria a lançar nos suplementos dos jornais nordestinos e em publicações do Sul e Sudeste brasileiro. Carlos Pena Filho era considerado uma das grandes promessas da poesia nacional. Suas primeiras obras foram reunidas e publicadas no livro O tempo de busca. Profundamente telúrico, inspirou-se na literatura de cordel e escreveu um longo poema chamado Memórias do Boi Serapião. O escritor de A vertigem lúcida e Livro Geral fazia parte de uma geração ligada diretamente à arte e atuante na vida política e literária do País.
Em suas obras é possível perceber a personificação da natureza, objetos, paisagens e até de obras de arte, tudo ganhava vida e cor ao toque dos pincéis de letras de Carlos Pena Filho, como no poema Fazendo Nova: “Vistas de longe, essas pedras/ de irregulares tamanhos/ são lembranças renascidas/ de abandonados rebanhos.” Em Soneto Raspado das Telas de Aloísio Magalhães, a inspiração alcança o azul, a cor vertical de suas obras: “Aquém do sonho e além dos movimentos/ uma nesga de azul perdeu as asas. / Quem a invadir, invade os próprios ventos/ que varrem mares e entram pelas casas.”
A sucessão de imagens bem engendradas em cada poema forma uma espécie de pinacoteca da palavra, com predominância da cor azul. Mais lírica que sensual ou erótica. Há uma declarada relação do poeta com as artes visuais, considerou-se certa vez um “pintor frustrado”. Como afirmou o escritor Renato Carneiro Campos em seu ensaio Carlos Pena Filho: Poeta da Cor, nas mãos do poeta pernambucano “as vogais e as consoantes magicamente se transformavam em ornamentos coloridos”. E encerrou magistral palestra sobre Carlos Pena, reiterando o amor do poeta pela cor azul, “o homem quando foi à lua e avistou a Terra, disse: a Terra é azul”.
Na diversidade das paisagens alcançadas pelo poeta, uma se destaca, a Cidade do Recife. Quando ocorreu sua morte Jorge Amado escreveu: “Foi preciso que faltasses assim brusca e terrivelmente, para que compreendessem que eras o dono da cidade, que eras a cidade, sua infinita e complexa realidade”. Carlos Pena Filho, poeta da cor e do Recife, consagrou-se imortal pela força e beleza de sua poesia.
Antônio Campos | Advogado e escritor
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