Este blog registra o cotidiano das atividades do advogado, editor, escritor e poeta Antônio Campos, suas atuações no mundo das letras e na vida cultural e empresarial pernambucana. Contato: camposad@camposadvogados.com.br
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JOSÉ SARAMAGO, A CONSISTÊNCIA DOS SONHOS
Tive a oportunidade de ver há dois anos, no Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista, a exposição José Saramago: a consistência dos sonhos. A mostra, que também foi exibida em países como Espanha e Portugal, reuniu cerca de 500 documentos originais do escritor apresentados através de recursos digitais e audiovisuais. Organizada pelo diretor da Fundação César Manrique, Fernando Gómez Aguilera, o evento contou com obras inéditas, traduções, manuscritos, notas, primeiras edições, fotografias pessoais e vídeos. Foi uma forma de comemorar os 85 anos bem vividos de Saramago. Uma bela exposição.
No ultimo dia 18 de junho, uma nota publicada pela Fundação José Saramago anunciou que o escritor português homenageado pela instituição morreu aos 87 anos. O intelectual faleceu por conta da leucemia que enfrentava há vários anos. No momento de sua morte, o autor de Ensaio Sobre a Cegueira estava em casa junto da família no arquipélago espanhol Lanzarote, onde vivia desde 2003.
Conheci Saramago na minha adolescência, durante o segundo governo de Miguel Arraes em Pernambuco. O escritor era um dos integrantes da comitiva do presidente de Portugal na época, Mário Soares. Na ocasião, lembro-me que meu pai, o escritor Maximiano Campos, conversou longamente com Saramago e que Arraes – meu avô – foi presenteado por Mário Soares com uma litografia do pintor português Júlio Pomar com a imagem de Fernando Pessoa. Litogravura essa que também foi dada à José Saramago, que a expunha em sua casa. Hoje, guardo carinhosamente o quadro que herdei do meu avô lembrando dele, de Fernando Pessoa, de Saramago e de nossa ancestralidade ibérica.
O vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998 ficou conhecido pela originalidade de obras como Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e O Ano da Morte de Ricardo Reis, livro através do qual conheceu sua segunda esposa: a jornalista e tradutora espanhola Pilar del Rio, que passou a se interessar pela obra de Saramago a partir da leitura do romance traduzido para espanhol La Muerte de Ricardo Reis. A jornalista afirmou que ao terminar de ler o clássico se sentiu bastante emocionada e “chorou compulsivamente”. Foi então que ela resolveu procurar o escritor para agradecer o livro e a emoção que sentira ao lê-lo. Nasceu assim uma relação de amizade, que aos poucos deu lugar a uma relação sedimentada e em 1988 se tornou um casamento construído com a mais intensa cumplicidade. Viveram juntos uma grande história de amor. Ouso dizer que Saramago ao viver o amor maduro com Pilar del Rio, de certa forma, conheceu a grande energia de Deus, embora a negasse.
No dia em que o falecimento do português completou sete dias, a escritora e atual diretora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa, que esteve na edição da Fliporto 2009, juntamente com a viúva de Saramago criaram um evento em memória do autor. Através da leitura coletiva do clássico O Ano da Morte de Ricardo Reis, centenas de pessoas puderam recordar Saramago. O mundo ficou um pouco mais cego e triste com a morte de Saramago. Contudo, a consistência de seus sonhos por um mundo mais livre e justo permanecerá, através da força e beleza de suas palavras: “Olho de cima da ribanceira a corrente que mal se move, a água quase estagnada, e absurdamente imagino que tudo voltaria a ser o que foi se nela pudesse voltar a mergulhar a minha nudez da infância, se pudesse retomar nas mãos o que tenho hoje longa e húmida vara ou os sonoros remos de antanho, impelir, sobre a lisa pele da água, o barco rústico que conduziu até às fronteiras do sonho um certo ser que flui e deixei encalhado algures no tempo.”
Antônio Campos | Advogado e Escritor
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