Começo a noite com a palavra sonho. Lembro de início que – conforme escreveu Heidegger sobre os Hinos de Hörderlin – princípio não é o mesmo que começo: o começo é aquilo com que algo se inicia, o princípio é aquilo de onde isso vem”. O próprio filósofo exemplifica: “Uma nova situação meteorológica, por exemplo, começa com uma tempestade, mas o seu princípio é a total alteração das condições atmosféricas que a precede”. Como há sonho fora e dentro do sono, nos olhos abertos e/ou fechados, utilizo – de Jorge Luis Borges – a alegoria de que só há um sonhador, de que os sonhos são partes da vigília, ou de que toda vigília é um sonho. Assim, posso simular – com ele e com vocês – a possibilidade insólita de que nada está acontecendo, hoje, aqui, isto é, de que eu estou em casa sonhando que estou aqui, agora, saudando o novo acadêmico, Antônio Campos. Neste caso, sou eu o sonhador. Mas vocês objetariam: “Não, você está aqui – na vigília ou na insônia desta noite – nós estamos lhe vendo e lhe ouvindo”. São vocês, neste caso, os sonhadores: cada um sonha que me vê aqui. E quem garante uma ou outra coisa?

Walter Vogelwede indagaria – “Hei sonhado minha vida, ou foi realidade?” Calderón de la Barca diria – “Que toda a vida é um sonho / e os sonhos, sonhos são”.  Shakespeare diria: “Somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos”. Hörderlin diria: “O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa”. Byron diria: “Tive um sonho que em tudo não foi sonho”. Muitos diriam, talvez todos dissessem. E não faltariam os sonhos bíblicos de Jacó, de José, do Faraó, de Daniel, nem os sonhos apocalípticos. Chauang Tzu – diria que – “Havia sonhado que era uma borboleta e não sabia, ao despertar, se era um homem que havia sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem”. S. T. Coleridge indagaria: “Se um homem atravessasse o paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e, ao despertar encontrasse essa flor em sua mão... então, quê?”

Claro, mas se tudo sonha, tudo canta, tudo tem alma, caberiam, como um despejo sobre esta noite, todos os sonhos dos homens e dos bichos e dos insetos e das árvores e das pedras? Caberiam todas as folhas do Livro de sonhos, do próprio Jorge Luis Borges? Caberia toda a repetição dos sonhos – como o Sonho infinito de Pao Yu, de Tsao Hsue-King, ou da Matriz infinita do sonho e Continuante infinito do sonho, de Joaquim Cardozo? Ou tantos sonhos comportariam um pesadelo? No livro – Sete noites – Borges narra uma passagem de Boécio: “O espectador está no hipódromo. A partir do seu camarote, ele vê os cavalos e a largada, acompanha as vicissitudes da corrida e a chegada de um dos cavalos à meta final – tudo sucessivamente. Mas Boécio imagina um outro espectador: aquele que é espectador do espectador e também espectador da corrida. Trata-se, presumivelmente, de Deus, que vê toda a corrida. Em um só e eterno instante – em sua instantânea eternidade (...) em um único, esplêndido e vertiginoso instante que é a eternidade”.

Minhas senhoras e meus senhores, eu não escolhi o sonho para esta noite, foi o sonho que me escolheu, quero dizer, fui o escolhido pelo sonho de Antônio Campos. Não pelo sonho fechado, dentro do sono ou dos olhos, mas pelo sonho aberto pelo seu – Portal dos sonhos. Portal não é porta, tampouco janela, portal é a entrada principal dos sonhos. E foi através dessa ombreira de sonhos que Antônio Campos chegou até aqui. Como escreveu Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Logo, foi preciso a vontade de Deus, o sonho do homem e a sua obra, para que esta noite fosse possível e real.

Permitam-me todos que eu tente desmistificar um aspecto de campanha. Eis o que se falava: “Antônio Campos é muito jovem para entrar na Academia”. Qual é a idade para se entrar na Academia Pernambucana de Letras, ou em outra congênere? Só se deve entrar quando se é quase uma vaga? No livro – Papillono homem que fugiu do inferno – de Henri Charrière (que Gabriel García Márquez considera – “um livro apaixonante, sem nenhum valor literário”) há uma passagem em que um réu é condenado à prisão perpétua e quando o juiz pergunta se ele tem alguma coisa a declarar, o infeliz indaga: “E quantos anos dura a prisão perpétua?” E quantos anos deve ter um autor para entrar na Academia Pernambucana de Letras? Antônio Campos tem 40 anos. Ai dos que morreram, como Chatterton, aos 17 anos, Lautréamont, aos 24, Keats, aos 25, Shelley aos 29, Byron aos 36, ou de Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Castro Alves, que partiram, respectivamente, com 20, 22, 23 e 24 anos! Ai de Rimbaud, que só escreveu até os 19 e morreu com 37! Fosse essa a regra, muitos dos patronos, pela idade, não poderiam entrar nas Academias.

Quando se é escritor: quando se publica o primeiro livro? Não, porque São Tomás de Aquino adverte: “Cuidado com o homem de um só livro”. Quando se é escritor: quando se entra na Academia? Não, porque a Academia faz do escritor um acadêmico, mas não faz do acadêmico um escritor. Quando se é escritor: quando se morre? Não, porque parodiando Santo Agostinho que disse – “De boas intenções o inferno está cheio” – poder-se-ia dizer: “De maus escritores o cemitério está cheio”. Quando se é escritor? Quando se nasce escritor: um escritor nasce quando nasce. Eis a sua imortal precocidade. “O poeta nasce – diziam os antigos – o orador faz-se”. Logo, a sua imortalidade não é para frente, e sim para trás. Ele pode atingir os cento e cinco anos do nosso Waldemir Soares Miranda (que votou em Antônio Campos) porém a sua imortalidade está no ventre, ou – antes – no sêmen, no óvulo, nos cromossomos. Mas, como tudo isso é só começo, a imortalidade de um escritor está no seu princípio e o princípio é Deus.  

Brodsky afirma: “Talvez a melhor prova da existência do Todo-Poderoso seja não sabermos quando vamos morrer”. Concordo, com Joseph Brodsky, de que essa seja a melhor prova da existência de Deus, mas a maior prova da existência de Deus, para mim, é a de que o homem não vai morrer. O homem – se alguém tem fé – desde que nasce é imortal. Pode ser que se prefira dizer: “Depois que morre é imortal”. Posso contradizer todos os que buscam, através da vida e/ou das obras, a imortalidade aqui, mas a imortalidade não começa hoje e nem agora. Ela já começou – antes mesmo do barro e do seu sopro. Por isso, não muito satisfeito de ser e, talvez menos ainda, de continuar sendo, o pré-modernista que alcançou a pós-modernidade, Augusto dos Anjos – o poeta de Dirceu Rabelo – diz a um gérmen: 

 

“Antes o nada, Oh! gérmen, que ainda haveres

De atingir, como o gérmen de outros seres,

Ao supremo infortúnio de ser alma”.

 

Senhor presidente, Waldênio Porto, eu falava de precocidade e precocidade, com respeito à Academia Pernambucana de Letras, eu só conheço uma: a de Marcos Vinicios Vilaça que, caso único entre os quarenta acadêmicos vivos, é o primeiro ocupante – o fundador – da cadeira de Nº. 35, que tem como patrono Antônio Pedro de Figueiredo. Vilaça (ninguém não pense que ele tem cem anos) nasceu em 1939, mas entrou nesta Casa de Carneiro Vilela com 26 anos e foi seu presidente com 30 anos. (Aliás – mantendo sempre a própria tradição – o voto de Marcos Vilaça foi o primeiro a chegar às mãos de Antônio Campos). Precocidade, Antônio Campos, se me permitem outro exemplo em outra área, talvez a mais próxima da poesia – a política – é a do seu irmão, Eduardo Campos, que se formou em Economia aos 20 anos, foi Chefe de Gabinete do Governador aos 21, Deputado Estadual aos 25, Deputado Federal e Secretário do Governo e da Fazenda aos 29, Deputado Federal reeleito aos 33, Ministro da Ciência e Tecnologia (o mais jovem do governo) aos 37 e Governador de Pernambuco aos 41 anos. E o que é melhor do que a juventude: a velhice? “Os velhos crêem em tudo; as pessoas de meia-idade suspeitam de tudo; os jovens sabem tudo” – disse Oscar Wilde.

A cadeira de Nº. 25 – cujo patrono é Martins Júnior – que você, acadêmico Antônio Campos, começa a ocupar em 2008, foi ocupada em 1921 – por Layette Lemos, em 1934 – por Valdemar de Oliveira (acadêmico pai do acadêmico Reinaldo de Oliveira) e, em 1977 – por Paulo Maciel. Quatro nomes pesam sobre a sua responsabilidade. Não obstante, por estar mais próximo, pousa em seus ombros Paulo Maciel. Esse humanista, mistura de homem com pássaro – Paulo Frederico do Rêgo Maciel – primo de Marco Maciel (que também votou em você) foi tudo: bacharel, professor, pró-reitor, reitor, secretário, técnico, deputado, presidente. Fez curso de aperfeiçoamento na Sorbonne e foi dono de uma inteligência que – como eu disse em uma crônica: “Parecia sempre querer pegar, no espaço, alguma idéia – a moscazul de verde”.

Quem é Antônio Campos?

Antônio Ricardo Accioly Campos, filho de Maximiano Accioly Campos e Ana Lúcia Arraes de Alencar, é neto, pelo lado paterno, de Fernando Carneiro Ribeiro Campos e Maria do Carmo Accioly Campos, e, pelo lado materno, de Miguel Arraes de Alencar e Célia de Souza Leão Arraes de Alencar. Pela parte literária, é neto da Geração-65, lançada pelo poeta César Leal, e do Movimento Armorial, criado pelo escritor Ariano Suassuna. Logo, ele vem desse cruzamento natural de Geração e Movimento, que resultou (com ou sem trocadilho) do parto César-Ariano. 

 

Antonio Campos – poeta

 

No prefácio do livro – Uivo – de Allen Ginsberg, o poeta William Carlos Williams aconselha as mulheres: “Senhoras, levantem as barras das suas saias, vamos atravessar o inferno”. Todavia, as leitoras que transpuserem o Portal dos sonhos, de Antônio Campos, devem receber outro conselho: “Senhoras, abaixem as barras dos seus vestidos, como se fossem redes, não sabemos o que tem na água nem na lama, no rio nem no mangue, cubram os seus pés, vamos atravessar a cidade do Recife”.

Eis o início do seu poema – A cidade:

 

    “Nesta cidade crescem os edifícios e a miséria

                                O rio é um punhal castanho,

                 sangra a cidade com mansa punhalada”.

 

Intencionalmente, a palavra – “mansa” – ou a expressão – “mansa punhalada” – quebra a violência do punhal castanho do rio que fere a cidade. O poeta Antônio Campos avança e detém, no mesmo gesto, a força da sua imagem, por não pretender a catástrofe, o cataclismo, o inferno. Ele possui a sutileza de um Ângelo Monteiro que fala “do gume calmo dos ossos”, ou seja, dos ossos na bainha da carne, sem as fraturas expostas. Essa é a sua marca, ou o sinal do seu temperamento. Contudo, como um rio não volta (e talvez por isso) ele faz o rio voltar sempre, como uma recorrência, ou uma ressonância, de outros poemas, em todo o livro, com o seu fazer-desfazer, seu ir-e-vir, sua tela de Penélope – que disfarça com a linha a própria agulha:

 

                                      O rio corre lento, maior que

                                        o terraço que rodeia a casa”.

 

                                                   Ou:

 

                                        “O rio se alonga, se alonga

                                                   como um enorme braço que tudo

                                                       quisesse trazer de volta”.

 

                                                   Ou mais:

 

                                                  “O rio, castanho; azul, o céu; e, branca a morada do homem”.

 

                                                   Ou ainda:                                       

 

                                                   “O rio castanho como o mel e a crina dos cavalos”.

 

                                                    Ou ainda mais:

 

                                                   “Compreendi que esse rio não corre em vão”.

 

                                                   Ou sempre:

 

                                                   “O Capibaribe pisoteia a sua cor castanha”.

 

O rio – punhal – passa a ser terraço, braço, cor, lembrança, urgência, mas – como uma cobra que tivesse pés – pisoteia onde passa. Dizem que o diabo fez o embuá (que tem tantos pés e não anda) e Deus fez a cobra (que não tem pés e quase voa). O rio é uma cobra de água, sem asas, porém com pés. As imagens de água de Antônio Campos, que correm leves, sonâmbulas, aliviadas, ganham, de súbito, algo de dor, ou recebem algo do mal: a cor do rio vem da cor da terra, o pó – que sobe dos pés do rio – mistura-se à água, o rio se pisa, pisoteia a própria cor. O verbo – pisotear – tão bem empregado no seu presente, remete-me, de chofre, a uma passagem do grande livro de Stevenson – O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde – conhecido como O médico e o monstro:

 

“O homem pisoteou tranquilamente a menina caída e seguiu seu caminho, deixando-a chorar no chão. Contando não é nada, porém vê-lo foi um inferno”.

 

Mas não é só o rio que volta, contrariando Heráclito – “Ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio” – e contrariando o seu discípulo – Crátilo – que, por sua vez, contraria Heráclito: “Ninguém toma banho nem uma só vez no mesmo rio”. Na poesia de Antônio Campos também voltam os punhais e, com eles, quando não volta o rio, volta o mar e, quando não volta o mar-oceano, volta o mar-canavial: 

 

                                                   “As canas são punhais

                                                  fincados no massapê da Mata”. 

 

Talvez se possa comparar os punhais das canas – pois o punhal é uma arma-branca mais perigosa e mais sutil do que uma faca – com Uma faca só lâmina – de João Cabral de Melo Neto, ou com as facas que tremem de frio – de Federico Garcia Lorca. Os gumes das suas palhas poderiam ser confrontados às folhas dos canivetes, às foices curvas, às estrovengas envergadas e até as relhas dos arados que abrem o massapê. Porém, como não há tempo para tal análise, deixo-a para a Bancada do Vale do Siriji – composta por Marcos Vilaça, Deborah Brennand, Abdias Moura e eu – porque o seu presidente que é o vice-presidente desta Academia – Antônio Correia de Oliveira Andrade Filho, há de trazer, geográfica e historicamente, para o canavial da sua Goiana, todas as canas e/ou punhais de Nazaré da Mata, Aliança e Timbaúba, de uma vez.  

            O poeta Vital Correia de Araújo (nome que está faltando a esta Casa) presidente da União Brasileira de Escritores, em ensaio publicado na Revista Continente Multicultural, diz:

 

“O poema Aprendizado com a terra, forma, com A duração, O cavaleiro, Paisagem, Reino do Verde, No Alpendre e Mundo, mundo, um (só) outro grande poema, que é uma lição das coisas de nosso tempo, na concepção humana e poética de Antônio Campos”.

 

            Antônio Campos – prosador

 

            O título do livro – Território da palavra – de Antônio Campos, sob determinada ótica, é quase um pleonasmo. Território é uma grande extensão de terra, uma área, uma base geográfica. Ora, se a palavra – palavra – for fragmentada, por exemplo, através do recurso da poesia práxis de Mário Chammie, ela se bifurca ou se divide em e lavra. Se eu digo – a palavra terra – simplesmente digo: a palavra terra. Porém se digo: a (o instrumento agrícola) lavra a terra, decerto digo outra coisa. Assim, o título de Antônio Campos – Território da palavra – por conter a terra do território, a terra da pá e a terra da lavra, é viciosamente telúrico. Daí parecer o seu amor ao livro, ser a continuação do seu amor à terra.

            No início do prefácio – A herança e a palavra – o romancista Raimundo Carrero, diz:

 

“Antônio Campos recebeu do pai, o escritor Maximiano Campos, autor do grande romance Sem lei nem rei e de muitos contos memoráveis, uma herança preciosa: a literatura”.

 

Tal herança é a parte mais profunda de Antônio Campos, ou o que está – conforme o título do mais recente livro de José de Sousa Alencar – Alex – Além da epiderme. Em – Raízes pernambucanas – Antônio fala do próprio pai:

 

“Maximiano Campos foi um escritor comprometido com o seu tempo e para quem escrever era se rebelar contra as dores e as injustiças do mundo. A obra de Maximiano Campos estava muito próxima de sua vida, como se na vida de um escritor pudessem coexistir duas biografias”.

 

            Percebe-se, sem esforço, que a recorrência à figura paterna, não é só pela ausência, mas pela admiração: foi o pai o seu mestre. Caminho em um terreno arriscado, mas quero acreditar que a presença de Maximiano Campos pese sobre Antônio Campos, ambiguamente: ele é escritor como o pai, mas para ele o pai é o escritor.   

Na Introdução do seu TerritórioO sopro que vem da palavra – há uma espécie de credo, de confissão, de definição de ofício – a profissão de fé de Antônio Campos:

 

“Escrever um livro é como mandar carta aos amigos. Por que se escreve uma carta? Porque não se pode falar nem calar. A criação da linguagem e da palavra é a criação do espaço humano”.

 

Antônio Campos – advogado

 

O advogado diz da vocação:

 

“Advogar é uma arte. Com certeza. Simples e complexa como interpretar uma sinfonia de Beethoven. Ou como examinar um denso romance de Dostoiévski”.

 

            Por minha parte, digo a Antônio Campos que, antes de me tornar advogado-amador, também exerci, ou tentei exercer, esta arte por cinco anos. Mas sempre achei mais fácil interpretar uma sinfonia de Beethoven, ou examinar um denso romance de Dostoiévski, do que advogar. Pelo menos os dois – Beethoven e Dostoiévski – nunca discordaram das minhas considerações e sempre conseguiram me pagar um preço – o do aprendizado – acima do meu valor. Fiz-me, de advogado, professor, mas sempre fui – tudo o que sou – poeta. Digo isso, porque, quando observo o movimento do grande Escritório – Campos e Noronha – a azáfama, as ações, os processos, as audiências, os recursos, os prazos, que Antônio Campos administra – interpreta e examina – tenho ânsias (novamente com ou sem trocadilho) de voltar aos meus campos, ou me lançar ao mar – no meu Dingue chamado de Trovão – até a Ilha de Fernando de Noronha. Sou hoje advogado do meu pai – que tem 95 anos de lucidez e vigor – e meu também, às vezes, porque – conforme o brocardo jurídico: “Quem advoga em causa própria, tem um tolo como cliente”.

 

Antônio Campos – empreendedor

 

Olho para o poeta, o prosador, o advogado Antônio Campos, e me pergunto: “Como é que ele pode fazer – e fazer bem – tanta coisa ao mesmo tempo?” Porventura – como diria Camus acerca de Sísifo – já não bastaria o Instituto Maximiano Campos para encher um coração de homem? Já não bastaria a publicação de toda a obra do pai? Já não bastariam as duas Antologias – Pernambuco, terra da poesia – um painel da poesia do século XVI a XXI, com Cláudia Cordeiro, e, Panorâmica do conto em Pernambuco, com (outro nome que falta a esta Casa) Cyl Gallindo? Já não bastaria a Fliporto – o maior evento da região, que vem se tornando o maior do Brasil?

Ah, basta deste verbo bastaria! Antônio não se vai bastar. Ainda é possível enxergar nele, além da herança literária do pai, a herança política da mãe (que coube a Eduardo receber) por isso ele escreve sobre o avô, Doutor Miguel Arraes – em O guerreiro do povo – usando, em prosa, heróico decassílabo: “Arraes morreu como viveu: lutando”.

 

            Volto-me para o seu tio, Renato Carneiro Campos – mistura de Quixote e Sancho Pança – cheio de tempestades e de intempestividades: o escritor, o cronista, o ensaísta que, de tanto falar no amarelo, findou deixando, como uma espécie de borboleta, uma saudade amarela em nós. Guardo, dele, uma Carta aberta, publicada no Jornal Diário de Pernambuco de 11 de junho de 1972. Se não digo o que ele diz de mim, digo o que disse dele no meu livro, o mais recente – Daguerreótipos:         

 

Fazias tempestade em copo-dágua

sobre a mesa de um bar, em teu pernoite

de violento amorbriga de foice

mas, no final de tudo, eras lágrima.  

 

 

Tinhas, de frente, o soco, atrás, o coice,

na boca, o verso, na garganta, a praga,

na carne, a unha que coçava a chaga,

mas, feito cada dia, eras noite.

 

As tuas mãos de facas nas bainhas

dos bolsos, rebentavam suas linhas,

mas, nem frio nem morno, eras quente.

 

Teus incêndios queimavam teus infernos

purgatórios ardiam céus internos

mas, em meio à fumaça, eras gente.

 

RENATO CARNEIRO CAMPOS

Brasil    08/03/1930    31/01/1977    46    peixes

 

Volto-me para o seu pai, Maximiano Campos, procurando os fragmentos de uma Carta aberta que escrevi – em 11 de agosto de 1998 e foi publicada no Jornal Diário de Pernambuco – há dez anos:

 

“Andaram me dizendo. Eu não sabia. Só agora eu soube. Talvez ainda não saiba (...) Quando recebemos estes choques, a nossa primeira impressão é humanamente paradoxal: ‘Estou vivo’. Conferimos a nós mesmos. Igualmente acontece quando reencontramos um velho amigo e percebemos que ele é um amigo velho. De súbito, aquela face, feito uma sombra do rosto anterior, funciona como uma espécie de rio onde nos vemos e nos indagamos: ‘Estou assim?’ O tempo nos distorce em seus espelhos (...) Acho que, quando acontece, não se nota a mudança, nem se percebe a diferença. A borboleta sabe que foi lagarta, ou que trocou folhas por flores? Tais coisas não se perguntam a Deus, basta esperar (...) A nossa amizade remonta a um tempo que não consigo: tempo em que eu ia com o meu avô, Nestor, conversar com você e com o seu pai, Fernando, sobre o próprio tempo. Será que a vida não é perder e buscar, proustianamente, o tempo? Na sua ausência, procurei o seu retrato nas paredes da Livro-7. Ele estava , pendurado pelo Tarcísio (...) Somos radicais como as árvoresesses bichos de raízes – nós, os de temperamentos parecidos. Chorar ou rir é o trivial: olhos e boca. Urge chorar e morder: olhos e dentes. Sim, Max, como sorrimos quando Mike Tyson (onde anda ele?) comeu um pedaço da orelha de Holyfield! (...) Você está na minha estante (...) Falei de Borges (...) ‘Quando os escritores morrem, eles se transformam em seus livros. O que, pensando bem, é uma forma interessante de reencarnação’ (...) Eu usaria, como variante de reencarnação, o termo reencadernação. Contudo, mesmo assim, eu não estaria sendo original, porque John Donne diz – na sua décima sétima Meditação: (...) ‘quando um homem morre, não é um capítulo que se arranca do livro, mas é apenas um que se traduziu para idioma melhor (...) Mas a mão de Deus está presente em todas as traduções, e é sua mão que reencadernará todas as nossas folhas dispersas para aquela biblioteca onde cada livro deverá jazer aberto um para o outro’ (...)  Não sei como anda o seu tempo, embora, presumo, na eternidade se pode ler, mesmo hoje, uma carta mais longa (...) Você, além do poder da solidão, também experimentou a solidão do poder. Todavia, com outra frase, faço outra constatação, menos feliz e mais terrível: a nossa geração começa a morrer. Decerto que (graças a Deus) ainda não morreram ou morremos tantos. Contudo, de uma coisa fique certo, Max, meu velho amigo e parente, a nossa geração morreu muito com a sua morte”.

 

Volto-me para a sua mãe – Ana Arraes – que, sem dúvida, de toda a sua família, é quem traz o sangue da política: sobrinha de Governador, filha de Governador, mãe de Governador e Deputada federal.

Volto-me para os terraços da casa da Rua do Chacon, 335, defronte à casa de Ariano Suassuna que, recentemente, me disse: “Quando começamos a chamar reitor e governador de você, é sinal que estamos velhos”.

Volto-me para o tempo de seu Fernando e dona Carmem, tempo em que Maximiano era Max e Ana era Ana (porque o seu nome também pode ser lido de trás para frente) tempo em que Eduardo era Dudu e você, Antônio – o mais novo e o mais moço acadêmico desta Casa de Carneiro Vilela – era Tonca

No livro – Italo Calvino – pequena cosmovisão do homem – de Gustavo de Castro, há uma passagem narrada por sua mulher, Esther Calvino:

 

“Esquivo e silencioso. O silêncio de Calvino era proverbial. Se alguém perguntasse algo, ele poderia responder ao fim de quinze minutos. Ele até se movimentava sem fazer barulho. Como um gato. Lembro de um dia em que estivemos com Borges (Jorge Luis Borges). Eu sentei ao lado do escritor argentino, que me perguntou: ‘Chichita, onde está Italo?’ E eu respondi: ‘Está sentado aqui à minha esquerda’. Então Borges me disse: ‘Ah... eu o reconheci pelo seu silêncio’”.

 

Borges que era cego, conseguia – com sua paradoxal visão – reconhecer o silêncio. E como, graças a Deus, eu consigo ver, eu enxergo, eu vejo – vejo que vejo agora – dois silêncios. Eles vêm da noite de fora para a noite de dentro, vêm da noite da lua e das estrelas, para a noite das lâmpadas elétricas que iluminam este auditório e se apagam em nós. Os dois silêncios estão aqui, audíveis, visíveis, sensíveis, quase palpáveis.

Não, meu caro Antônio Ricardo Accioly Campos, não, não pense que nesta noite do dia dez de dezembro de 2008, você entra sozinho nesta Academia Pernambucana de Letras. Você é vocês, você está acompanhado de dois silêncios. O primeiro silêncio é o silêncio do seu tio, o silêncio do escritor Renato Carneiro Campos, que Maria do Carmo Tavares de Miranda – ela nos disse – andou tramando, junto com Gilberto Freyre, para que ele, antes de ser silêncio, entrasse aqui. O segundo silêncio é o do seu pai, o silêncio do escritor Maximiano Campos, que não teve tempo para entrar aqui. Você, Antônio Campos – como também é um homem do direito – faz justiça aos dois. Você é uma voz que entra, com dois silêncios, nesta Casa. Também (a própria noite nos revela) nós um dia seremos só silêncio, mas, para que possamos ser silêncio, é necessário termos sido voz.

 

Obrigado.   

 

Olinda, 10 de dezembro de 2008.

 

 

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ACCIOLY, MARCUS: "Saudação a Antônio Campos". Discurso proferido na ocasião da posse de Antônio Campos, 10.12.2008, na Academia Pernambucana de Letras.

 

 

 

          

 

"[...] Antônio tece agora para nós a outra voz, a que foi chamada poesia por Octavio Paz, com a humildade e a altivez híbridas do poeta, fazendo a sua parte nesse jogo e nessa viagem com que todos nos defrontamos."

Lucila Nogueira

 

CAMPOS, Antônio. Portal de Sonhos. São Paulo: Escrituras, 2008. Projeto gráfico: Patrícia Lima. Fotos de Gustavo Maia.