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As feras ouviam a serena voz
do bem e a julgavam enlouquecida.
Pode não ser paz a morte nem tranqüila a vida,
há sonhos no homem que nem a eternidade limita.
Antônio Campos
Schlegel
dizia que todas as pessoas que amam a poesia são por ela reunidas e
aparentadas em laços inseparáveis. Porque elas têm uma maneira especial
não só de ser, como de ver e sentir os eventos do cotidiano, daí o
reconhecimento entre si que ocorre na classe dos autores, ainda quando a
obra está oculta, e não surgida em livro, revista ou leitura pública.
O poeta, como Édipo diante da esfinge, identifica e decifra os signos qual
Prometeu, que rouba o fogo dos deuses e o reparte com os homens; como
Ícaro de asas coladas, que arremete sobre o mundo desde as alturas, anjo
de Wim Wenders aspirando à materialidade da condição humana.
Conforme Octavio Paz, a poesia vem ser a outra voz, aérea e subterrânea,
que os poetas ouvem não de fora, mas de dentro de si próprios, dependendo
da modulação do sotaque a sua singularidade, que lhe dará a marca da
diferença como forma típica de uma existência. É que o ânimo do homem
possui algo assim como uma verdade anterior, daí que a poesia sempre diz
mais do que anuncia, porque consolida uma atitude diante do mundo, decisão
do poeta em ser ele mesmo,para além da superficialidade dos simulacros em
torno, do esteticismo vazio ou do diletantismo pedante. Ela há de ter
sempre um caráter de assombro, um timbre de estremecimento, nunca um mero
afã de novidade. Não a vejo como mero refúgio, disfarçada filosofia ou
substituta da vida; compreendo-a como necessária e jamais inútil,
companheira sempre disponível à interlocução e ao diálogo.
Poesia: um modo onírico de legislar. Portal de sonhos. É o que
sinto de imediato à leitura deste livro de poemas de Antônio Campos,
advogado, escritor e produtor cultural, em que a outra voz, no caso a
poética, vem nos surpreender e se nos apresenta em uma sucessão de quadros
e temas, imagens e idéias, com uma dicção consentânea em seus traços
principais, com a densidade intelectual e lingüística da poesia que se faz
em Pernambuco, onde o local toca o universal com gosto de raiz e o
sofrimento humano ascende à condição de princípio norteador da permanente
resistência no desejo da conquista substancial mais grave:
Amigos, esta luta é um castigo,
não quis nada além da solidão
que mora e vive em paz comigo.
Um dia virá a palavra,
e o tempo correrá
ao nosso lado.
Então, colheremos a safra:
o sofrimento domesticado.
Uma reflexão sobre a percepção poética implica em aferir a relação do
homem com a natureza através da linguagem. Talvez por isso, Mikel Dufrenne
veja o poeta com a função de criar nos leitores/ouvintes o estado poético,
que seria de encantamento, mas também de conhecimento, sonho que forma
imagens em uma unidade de sons pré-aristotélica, ao modo do devaneio a que
se referiu Bachelard.
Perpassa por este livro toda uma atmosfera de melancolia irredimível, como
se estivéssemos contemplando o quadro de Dürer com o anjo e seu esquadro,
alegoria do poeta e do artista, contrastando com a banalidade sua aura
inefável. Ou o anjo do renascentista Correggio, melancólico como o próprio
autor, Antonio Allegri, cuja obra só vem a ser revalorizada no romantismo.
Entretanto, os versos estão carregados de uma intensidade contida,
característica de um tipo de entrega amorosa que se encontra em extinção,
devido à sua força selvagem e contínua, por sob a delicadeza cortês que
vai do trovadorismo ao dolce stil nuovo, presente ainda nas
estruturas dos poemas de certos autores nordestinos:
Toma este pobre verso
feito de muito espanto,
danações, solidão e medo,
rima e força do meu canto.
Aproveita enquanto é cedo
e seca com ele o teu pranto,
recebe nessa rima o meu zelo,
por todo esse teu encanto.
Se ando de ti tão distante,
não me esqueci que eras bela.
Nem meu amor um só instante
se arrefeceu nessa longa espera,
pois é teu este poema andante
e a paixão que nele se revela.
Sendo prazer e lucidez para o homem, a poesia nos ensina algo sobre nós
mesmos, nos conduzindo a sentimentos ainda não experimentados. Ajuda-nos a
penetrar nos mistérios da física, pois se constitui naquela realidade
absoluta de que falou Novalis, na crítica da vida referida por Matthew
Arnold, feita de modo breve (Poe), harmonioso (Coleridge), espontâneo (Wordsworth);
espelho e caleidoscópio do mundo interior e circundante do poeta, sempre
atento às analogias e conexões, desde o fantástico onírico à radicalização
empírica da memória.
O poema pode ser apenas a tradução de algo que o precede, mas que vai
importar bem mais do que ele: daí a proposta de Rimbaud: chegar ao
desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos, o que levou
Steinmetz a dizer tratar-se a sua poesia de um espetáculo de lanterna
mágica.
Principalmente, diga-se que a poesia é sobretudo uma ênfase, em que o
sentido já vem presente no som da palavra. Uma arte combinatória em
direção contrária à máscara, mas que não a ignora, antes, a transforma.
Ela é que criou a linguagem na infância da sociedade, daí seu caráter de
anotação de uma resposta, sendo o poeta o articulador do inexistente como
possibilidade e da realidade como sonho alcançado, homem/metáfora que,
obstinado, edifica a sua parábola. Sua explosão de afetividade passa pela
carne, no calor dos trópicos do Nordeste, terra de heróis e homens bravos
ainda ligados a uma perspectiva mítica de sua própria terra, com algo de
grego na paisagem de excessiva claridade que serve de cenário à sua busca
e à sua solidão. Curioso, sendo o autor urbano, seus versos são bucólicos
e remetem a um outro tempo, mais freqüentado de rigor e serenidade, em que
a vida é sempre uma luta que fortalece a mitologia do destino, em sua
lenda fatalista:
Era a fé e bravura,
no peito sem armadura,
o acreditar que a sorte
despreza quem não a procura.
Após a sucessão de verdadeiras telas do Nordeste, substantivadas na
primeira parte do livro, Antônio Campos prolonga, na segunda parte, o
fôlego rítmico de sua enunciação lírica, tornando-se mais direto e próximo
do seu objeto estético, de maneira mais coloquial e adentrando-se naquele
verso chamado livre, que Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade
demonstraram ser, muitas vezes, mais corrigido ainda do que o
tradicionalmente metrificado. A paisagem inclui o oceano e suas águas, vem
à tona o sonho tornado irrecuperável, tempo de exílio e juventude
irremediavelmente fugitiva.
Diante do mar,
recolho minha louca esquadra.
Ela chega de viagens e distâncias,
insensata.
Navegou tantos sonhos
que se perdeu nos caminhos:
o tempo virou espuma,
ondas e redemoinhos.
Diante do mar,
a juventude partida,
o possível exílio,
as guerras perdidas,
brisa, sargaço e maresia,
a solidão, a espada
e o haver sonhado,
irredimível.
Das veredas, a memória reconduz a luz de candeeiros e vagalumes da casa
branca e do jardim que se mistura ao verde na paisagem do lugar ameno, dos
motivos bucólicos; a descrição da natureza vai impregnar essa poética
despreocupada de retóricas, poesia de um pastor de sonhos ao modo dos
goliardos, o relevo da mata sinuosa cortando a paisagem como um paraíso
ainda não de todo perdido.
nas verdes campinas molhadas.
O rio corre lento, maior que
o terraço que rodeia a casa.
Noites de escuro, candeeiros acesos,
bandos de vagalumes imóveis de pavio,
cobertos de lata.
A casa é branca; e o rio, castanho
como o mel e as crinas dos cavalos.
O jardim não tem tamanho, dura toda
a Mata sem intervalos.
Talvez a grande virtude da poesia consista em nos fazer iguais a ela,
assim em pleno êxtase, imersos nessa zona singular da alma, entre a
palavra e o imaginário, via de acesso a uma cosmogonia feita da infância
da humanidade, sua religião primordial, anímica e mágica, primeira
abertura para o mundo que, através dos símbolos, nos doa a resposta. O
poeta vai e liberta a palavra da natureza; e o segredo do poético está
justamente nessa força ao manifestar-se, no desenho como
na partitura do verbo inconfundível em sua marca. Interessa verificar como
as artes plásticas estão integradas ao ritmo e à sonoridade dos poemas, a
ponto de ser esse traço objeto de confissão do próprio autor.
Dessas várzeas da Mata
e desse mar sereno,
fiz uma rede para descanso,
tornei grande o que era pequeno.
Pintura: poesia muda; poesia: pintura que fala. Sim, um livro de poesia
como se fosse um mural. E o poeta-cavaleiro em seu galope nordestino
torna-se possuído por seus sonhos, prisioneiro de seu elmo onírico,
atravessando os rituais mais difíceis, na busca de um Graal não definido,
mas com a severidade aristocrática de um rei uno com a sua terra, que só
diante da presença do cálice encontraria a salvação. E o que isso significaria, na visão mítica? A força perdida, mas não a imaginação; o poder
quebrado, mas não o sonho; o Portal de sonhos.
Com esta terra, aprendi que a vida
também vive na morte
e que Deus dá diferentes sinas
para que o homem carregue o mundo e o suporte.
Dor de viver, alegria de estar vivo. Todos somos isso, essa bipolaridade,
essa ciclotimia, esse entusiasmo, essa desilusão. A qualquer instante, uma
mudança súbita, um levantar de barcos com bandeiras coloridas, uma
exaltação e uma febre pelo que se pensa encontrar em lugar nenhum, uma
lebre que se tira da cartola sob uma capa que esconde truques muito
antigos. A poesia também com esse caráter lúdico do circo que não
esquecemos na nossa infância, olhos perplexos diante do impossível
multiplicado em fundos falsos já em decomposição, mas que para nós tinha a
supremacia de um poder acima da banalidade do cotidiano.
Só a coragem liberta
o viver amarrado no medo,
que o mundo é um velho mágico
cheio de estranhos segredos.
Espera e crença no milagre, no fantástico, no absurdo, no maior dos
impossíveis. Essa é a atmosfera em que nos introduz Antônio Campos neste
seu primeiro livro de poesia, que se insere desde já no panorama por ele
traçado em significativa antologia do que tem representado, no cenário
nacional, a bela poesia pernambucana. Além dos livros anteriores, que
incluem inclusive uma antologia do conto em Pernambuco, Antônio tece agora
para nós a outra voz, a que foi chamada poesia por Octavio Paz, com a
humildade e a altivez híbridas do poeta, fazendo a sua parte nesse jogo e
nessa viagem com que todos nos defrontamos.
Lucila Nogueira
CAMPOS, Antônio. Portal de Sonhos.
São Paulo: Escrituras, 2008. Projeto gráfico: Patrícia Lima. Fotos de Gustavo Maia.
Apresentação de Lucila Nogueira. |